O circuito de cinema Cinemark não apresentava 'Melancholia' em cartaz, por se tratar de uma rede mais voltada ao cinema comercial, e se Von Trier entrasse em algum tipo de classificação com toda certeza não se encaixaria nesse rótulo. Aliás, definir o cinema de Von Trier não é tarefa das mais sensatas.
No filme, Lars Von Trier aborda um tema mais que recorrente nas telonas: o 'fim iminente', a devastação do mundo por fenômenos naturais. E nesse caso, o grande vilão que acabaria com toda a espécime humana é um enorme planeta azul chamado 'Melancholia', que em sua dança da morte ao redor da Terra acaba por ser uma ameaça de colidir com o nosso planeta.
Mas explorar o 'fenômeno' não é o foco aqui, tanto que o choque do planeta invasor com a Terra só é abordado na segunda parte do filme (o longa é dividido em duas partes, como capítulos em um livro ). Na primeira parte desenha-se uma festa de casamento, em que cada detalhe é aprontado com exímio perfeccionismo pela irmã da noiva (Charlotte Gainsbourg), deixando rastros do que seria a personalidade controladora e materialista de Claire.
No casamento, Justine (Kirsten Dustin) mostra-se deslocada, intocável, quase feita de plástico tamanho o esforço que exerce em tentar ser real. Então, o conto de fadas é desfeito, com toques do pessimismo esdrúxulo de sua mãe (atuação sempre sensacional de Charlotte Rampling), com o desamarrar das boas aparências na cena épica com seu chefe neorótico (Stellan Skarsgard), com as cobranças constrangedoras de John (Kiefer Sutherland), marido da irmã da noiva, forçando-a a estar contente com o circo armado já que fora ele quem pagara todas as despesas. E desmancha-se por completo com o adultério inexplicável aos olhos de quem quisesse ver.
É nas sucessivas cenas sufocantes da cerimônia que traça-se o perfil insano e incompreensível do trio de personagens principais que farão da segunda parte um palco só deles.
Então, a câmera deixa de filmar tons luminosos de uma alegria ilusória para focar-se no acizentado das almas de Justine, Claire e John.
John é o crente da ciência. Acredita veemente que os cientistas estão corretos ao afirmar que a probabilidade do planeta chocar com a Terra é ínfima, e tenta à custo convencer sua mulher do seu positivismo concreto.
Já Claire é a imatura, a apegada. E com criança interior que tem, usa da sua impassível curiosidade para contrariar a falsa certeza, e parece que só faz isso para alimentar sua dor.
Enquanto o casal decide se acredita no fim do mundo ou não, Justine parece à vontade com o incidente. E é exatamente como ela trata a morte, como se fosse uma condição à ser aceita, sem pesar. Mas Justine também carrega em sí uma aura sombria. Logo após o casamento falho, a garota cai em uma convalescência que lhe tira todas as forças do corpo, tendo que ficar sob os cuidados de sua irmã e família. Diz coisas sem sentido, isola-se, perde-se na noite e enamora-se da lua e do planeta azul numa cena em que mostra-se Kirsten como veio ao mundo. Em suma, é onde Von Trier deposita toda a sua esquizofrenia costumeira em um personagem 'problema'. Mas engana-se se pensas que por ser a personagem misteriosa que ela teria mais espaço no filme pondo-a como protagonista do mesmo. Quem dá um show maestral de atuação do meio ao fim é Gainsbourg no papel de Claire. Pois quando tem sua ilusão desconstruída pela certeza da morte é que sem chão e perdida que Gainsbour nos alucina com seu terror. Terror esse que Von Trier desenha tão bem em seus filmes. O terror do medo, da angústia, de SER HUMANO.
Nas cenas finais, cada um vive a sua solidão de sua maneira. Justine cada vez mais resoluta de sua realidade imposta, mais calma se torna, confortando o filho de Claire que tem o papel do 'encarar a morte' com inocência na história. John, ao ver suas convições caídas por terra não sabendo como conviver com a frustração da ilusão, dá cabo de sua própria vida longe dos que demonstrava tanto amar. E por fim, Claire, rasteja com o rebento nos braços à procura do invisível, à procura do vazio, do seguro, do abrigo, do colo da Mãe Terra, mas esta nega-a os braços e afasta-a de seu devaneio doentio.
E foi na última cena, quando meus olhos arregalados não despregavam da tela, minha respiração ficava cada vez mais profunda e ofegante, minhas mãos trançavam os braços da poltrona que tive a maior satisfação visual em todo o filme (tão bela como a cena que abre o filme por sinal) e depois, o filme acaba. De cores claras e brilhantes passa ao total bréu dos créditos descendo tela abaixo. A música erúdita que é trilha sonora da explosão de Melancholia com a Terra dá lugar aos protestos mal-criados de esparsos expectadores das poltronas atrás de mim, com singelos: que merda de filme. E eu precisei de uns bons minutos pra voltar ao planeta, esse que ainda não acabou mas que está explodindo em universal Melancolia.
Bom ou não, Von Trier consegue neste filme tratar do tema 'Fim do Mundo' facilmente passível de cair num 'senso comum', como sendo algo secundário às tantas possibilidades em exlorar o interior humano diante de uma catástrofe descomunal como perder a vida e as suas materialidades mundanas. E é aí onde sua câmera aponta: pra dentro, não pras exterioridades, não pros efeitos especiais de 'Um dia depois de amanhã' e afins, e sim para a sujeira, o tom acre e com gosto de cinzas do ser humano quando se mostra frágil e apegado às coisas perecíveis do mundo.
Gostei da fotografia, gostei do recurso da música clássica nos pontos altos para aumentar a tensão, das atuações, do roteiro também, por que não?
E concordo quando dizem por aí que 'Melancholia' é o filme mais mainstream do diretor que já filmou coisas intragáveis como 'Anticristo' e 'Dançando no Escuro'. Von Trier é o artista da dor sim, e não vejo mal em levar pro cinema um pouco do fardo humano se pode servir como alerta do que tanto nos acorrenta em vida.
4 estrelas.
Considero que, como voce mesmo menciona, é facil cair em
ResponderExcluirconclusões apriorísticas, no entanto, a
crítica a esse materialismo e apego do ser
humano é latente. Talvez por isso mesmo
esse é um dos filmes que incomoda, ate mesmo por nao esta no circuito comercial.
Lembrando das cenas no início do filme
antes de começar o desenrolar da historia, ja
percebe-se isso o despertar para um lado mais
obscuro como proposta à reflexao. Interessante o seu texto pois sempre relembramos detalhes que acabam despercebidos ou esquecidos.