Esse será o último tópico do Brave New World de 2011, e pra fechar o ciclo de postagens, escolhi relembrar os 5 melhores filmes lançados esse ano, afinal todo cidadão antenado adora uma listinha de retrospectiva de final de ano, não?
- A Pele que Habito
Almodóvar e Banderas viviam um hiato de parceria desde 1990 quando o diretor chamou o ator para filmar 'Ata-me', película que posteriormente foi bastante marcante na carreira dos dois artistas. E marcante é um adjetivo pertinente para definir a última obra do cineasta espanhol. Em 'A Pele Que Habito' conta com a história de um cirurgião pouco convencional que usa da ciência para saciar um desejo pessoal, e através de suas experimentações Robert Ledgard (Banderas) desenha um labirinto psicótico que assemelha-se às tramas viscerais de Cronenberg, afastando-se de seu usual melodrama para aventurar-se no thriller psicológico. Filme para todos os sentidos. 'A Pele Que Habito' foi indicado à Palma de Ouro do Festival de Cannes 2011.
Filme dirigido pelo iraniano Abbas Kiarostami (Gosto de Cereja) que transcorre sobre o embate entre a galerista Elle (Juliette Binoche) e o escritor James Miller (William Shimell).
Um filme simples, mas carregado de questões extremamente complexas em diálogos entorpecentes, sendo quase duas horas de cenas belas, atuações que de tão intensas nos dão um banho de completo envolvimento com o casal. Não é a toa que a película tenha rendido o prêmio de melhor atriz em Cannes para Binoche.
- Melancholia
Lars Vontrier é aquele diretor que se ama ou se odeia não tem jeito. Sua filmografia é repleta de obras extremamente polêmicas que podem não agradar o estômago mais sensível. Já em 'Melancholia' percebemos o diretor suavizando a mão ao entregar um filme mais digerível, e que surpreendentemente se encaixa na cena mainstream , e é exatamente por isso que ainda é tão comentado. O diferencial em Melancholia é a maneira que Von Trier retrata um tema tão clichê quanto o fim do mundo. E nesse caso, o que é explorado é exclusivamente o comportamento humano, e não apenas o fenômeno em si. Melancholia recebeu o prêmio de melhor filme europeu pela Academia Europeia do Cinema. Resenha aqui.
- Cisne Negro
Outra película que gerou discussões acaloradas nesse ano de 2011. Há quem diga que 'Cisne Negro' mereceria ter ganho o prêmio de melhor filme do ano no lugar de 'O Discurso do Rei' pela grandiosidade final da película de Darren Aronofsky em relação à película de Tom Hooper. Mas sabemos que Hollywood aprecia filmes que tratam de temas leves (e nacionalistas?) e não de roteiros densos e polemizados como o de 'Cisne Negro'. Acima de todas essas questões morais, 'Cisne Negro' teve uma produção magistral e isso está explícito em cada take filmado. Natalie Portman que vive a bailarina Nina, recebeu o Oscar de Melhor Atriz do ano de 2011. Resenha aqui.
- O Vencedor
David O. Russell nos presenteou com um dos melhores filmes sobre lutadores dos últimos tempos (na lista está incluso o clássico 'Touro Indomável' e o contemporâneo 'O Lutador' com Mickey Rourke) e juntamente ao roteiro e produção com ar de documentário que amplifica a voltagem do drama e das lutas, conferimos a atuação devastadora de Cristian Bale no papel de um ex-boxeador nocauteado pelas drogas e que foi ovacionada através do prêmio de Melhor Ator do ano pelo Oscar. Muito foi falado de Bale, mas não tiremos o crédito da atuação correta e intensa de Mark Wahlber.
Dois mil e onze foi um ano bastante agitado em relação à cultura pop. Música, cinema, artes, e eu apenas fiz navegar nas ondas desse maremoto de informações compartilhando com vocês leitores, impressões pessoais à cerca de mundanidades. Agradeço a atenção e carinho por fazer do Brave New World um local de entretenimento e de busca quando o intuito é informar-se ou pesquisar por opniões. No próximo ano continuarei me dedicando à esse hobby extremamente prazeroso que é escrever sobre assuntos dos quais sou apaixonada, e conto com a presença de todos à cada postagem!
Que em 2012 possamos mudar o nosso interior a fim de modificar o que há lá fora.
Asta!
Dois mil e onze foi um ano forte em relação à lançamentos de discos. Muitos artistas indie's saindo da toca pra arriscar a cena mainstream, outros tantos artistas já famosos investindo nos materiais simultâneos, isto é, um mesmo cantor lança um disco simples de inéditas em um determinado mês, e num pequeno intervalo de tempo, esse mesmo artista lança o mesmo disco, mas duplo, com material extra que não havia no primeiro disco.
Estratégias de marketing à parte, esse ano, que num piscar de olhos termina, também foi um período de vacas magras pro mercado fonográfico, digo no sentido criativo, inovador e positivamente qualitativo. Ouvimos muitos trabalhos amenos, 'lugar comum', e criamos cega espera diante de artistas dos quais não é permitida a hipótese de decepções, e foi exatamente o que aconteceu em alguns casos. Mas isso é assunto pra um outro post sobre expectativa demasiada em álbuns frustrados!
Nessa lista de 15 álbuns realizados em 2011, procurei filtrar os discos que mais deram o que falar na mídia, se destacaram tendo em vista a pouca visibilidade dos artistas, e sobretudo que surpreenderam ao entregar às prateleiras das lojas trabalhos consideravelmente arrojados e agradável aos ouvidos.
The Decemberists - The King Is Dead
O último disco do Decemberists, banda estadunidense vem para desmistificar a idéia de que Meloy (frontman do grupo) havia perdido a inspiração para sempre depois de ter entregado um disco fracassado tendo sido desprezado por completo pela mídia e ouvintes. O disco apresentava dezenas de falhas e carregava uma pretensão que não era comum aos outros 2 trabalhos anteriores do grupo.
Mas 'The King Is Dead' aparece como um suspiro de alívio e nos supreende mais uma vez com a qualidade absoluta em cada faixa presente num único trabalho.
'Dear Avery', música que apresenta o disco, é um cântico que nos remete imediatamente ao grunge dos anos 90, o timbre trêmulo dos vocais de Meloy e a levada calma apenas reforça a semelhança, mas do meio pro fim da mesma canção a maré muda, tornando a melodia bucólica e de acordes country.
E é em 'This Is Why We Fight', dona de um dos vídeos ilustrativos mais sensíveis apresentados na cena últimamente, que o grupo mostra escancaradamente sua nova musicalidade. Não há como não se prender ao refrão de fácil assimilação e cantarolar deixando-se embalar pela melodia envolvente, pelo som suave da gaita, o viajar dos acordes límpidos do violão acústico e as viradas de bateria que dão suporte e corpo ao preenchimento da canção. Soa totalmente novo, e sincero.
Faixas recomendadas: 'June Hymn', 'This Is Why We Fight' e 'Calamity Song'.
Mogwai - Hardcore Will Never Die, But You Will
'Hardcore Will Never Die, But You Will' é o último disco lançado pelo grupo escocês composto por Stuart Braithwaite, Dominic Aitchison, Martin Bulloch, John Cummings e Barry Burns, mas não se deixe enganar pela falsa propaganda do título do álbum, pois nada se encontra de Hardcore nesse disco, e sim uma boa extensão do Post-Rock presente em seus habituais trabalhos. E faixa por faixa conferimos guitarras bem trabalhadas embebidas pela influência do rock alternativo, guitar bands e free jazz. E no caldeirão de misturas, encontramos arranjos sofisticados de teclados e o ritmo impecável da bateria, dessa forma, podemos rumar à vaga definição do som que permeia o álbum.
O elemento vocal também é audaciosamente explorado nesse novo disco, embora com menor frequência. Em 'Mexican Grand Prix' e 'George Square Thatcher Death Part' são as faixas que carregam as vozes tomadas por auto-tune fazendo um time juntamente com o adorno da instrumentação. E de fato não são os sussurros sujos dos vocais que ditam as regras nas melodias, e sim a parte orquestrada quem as controla, mas jamais sendo abafadas pelo peso das guitarras principais de Braithwaite e Cummings, mas conduzindo-as.
Os riffs uninem-se e separam-se à medida que as canções avançam, nos prendem à um ponto inóspito de uma geleira deserta, até nos explodir de calor com o peso robusto das já citadas guitarras e as batidas cavalares nas baquetas.
A dosagem da distorção nos longos arranjos continua sendo o fio condutor do Mogwai. O disco constrói atmosferas que casam tanto a uma noite chuvosa quanto a uma tarde ensolarada, dependendo da sensibilidade do ouvinte.
Talvez o intuito de 'Hardcore Will Never Die, But You Will' seja nos locomover por diversas paisagens e atmosferas, e ao final de tudo isso termos aquela sensação comtemplativa, onde possa nos levar à vontade de querer o sol quando já se está escuro, ou de se esconder por trás das camadas sonoras a fim de nos cobrir do preenchimento oferecido pelas melodias.
'Faixas recomendadas: 'How to Be a Werewolf','Too Raging to Cheers' e 'White Noise'.
'Play The Blues' é um álbum de parceria de dois dos maiores gigantes da música, Eric Clapton, guitarrista bluseiro que dispensa apresentações e Wynton Marsalis, trompetista de jazz conhecidíssimo por sua exímia volúpia ao dominar o instrumento. Juntos, trabalharam na elaboração de novas roupagens à músicas clássicas do Jazz como no número animadíssimo de abertura 'Ice Cream' de Louis Armstrong, à uma versão de 'Careless Love' da cantora Bessie Smith e em 'Forty-Four', música de Howlin 'Wolf, significativo guitarrista de blues clássico.
Clapton foi o responsável por selecionar todas as músicas do repertório, exceto 'Layla' que foi solicitada pelo baixista Carlos Henriquez, tranformando um dos hinos da carreira musical do guitarrista quase em um doce canto fúnebre, pois esse novo arranjo carrega uma tristeza saudosa em cada nota. Originalmente esta canção pertenceu ao disco 'Layla and Other Assorted Love Songs' gravado em 1970 numa frequência bastante acelerada. Vinte e dois anos depois Clapton regravou-a em versão acústica, mais lenta, mas a Layla de 'Play the Blues' consegue ser duas vezes mais vagarosa (de forma alguma enfadonha), permitindo o ex-Cream solar à vontade onde não teria espaço nas versões anteriores. E é aqui que Marsalis alcança um timbre quase de sax alto, atingindo uma suavidade notável em seu solo de trompete.
O elemento banjo dá um ar de bluegrass nos arranjos, resgatando o blues de raíz que Eric Clapton tanto abusou no início de sua carreira solo. Outra coisa interessante de se notar é o walking bass sempre presente no Jazz clássico, e no disco, mais ativo do que nunca. Isso somado à guitarra bluseira de Clapton é a resposta de que gêneros diferentes podem casar tão bem quando o intuito é fazer boa música.
Em 'Corrine, Corrina' outro blues clássico gravado por 'Bo Carter', Taj Mahal mostra pra que veio destilando sua voz rouca e afinada, e nos deliciamos por mais de dez minutos em demonstrações individuais hipnotizantes. Pode-se notar que cada músico empresta seu brilho para as canções, levando sua personalidade e bagagem musical ao corpo das músicas. Não há apenas um elemento chave nesse projeto, mesmo com dois deuses atuando juntos percebemos que todos os outros membros do grupo contribuem para o sucesso do resultado final.
Faixas recomendadas: 'Forty-Four', 'The Last Time' e 'Joliet Bound ' .
A trilha de 'Tron: Legacy' levou 2 anos pra ficar pronta, uma pré-produção que valorizou até os últimos retoques, fazendo com que os mestres do Daft Punk não conseguissem realizar nenhum outro grande projeto por todo esse tempo. Além disso, conta com a incrível parceria entre o duo eletrônico com uma orquestra de mais de 80 integrantes regida pelo maestro Joseph Trapanese. Mas os maiores feitos da produção foi levar, pela primeira vez, o Daft Punk pro top 10 nos Estados Unidos, ser primeiro lugar em vários charts pelo mundo, lançar um álbum todo de remixes (Tron: Legacy Reconfigured) de uma trilha sonora e, claro, marcar a volta de um dos maiores projetos de música eletrônica do mundo que estava "parado" desde 2007.
E o lugar em destaque nesse post sobre os álbuns mais relevantes vai pra versão remixada da trilha de Tron. Reconfigured é um disco eclético de 15 remixes a cargo de alguns dos mais respeitados Dj’s e produtores de todo o mundo. Desde o multi-facetado e cibernético Moby que se encarregou de dar o seu toque pessoal à 'The Son of Flynn' e 'The Grid' remixado pelo duo de música electrónica The Crystal Method (Ken Jordan e Scott Kirkland) passando pelo DJ e produtor alemão Boys Noize (Alexander Ridha) que remixou o tema 'End of Line'.
Outro dos temas que importa destacar é a remistura do tema“Fall” feita em conjunto por M83 e Jonathan Bates’ Big Black Delta.
A trilha foi indicada pela Disney ao Grammy Awards 2012, na categoria Melhor Trilha Sonora Instrumental para Mídia Visual.
Faixas recomendadas: 'The Son Of Flynn' (Kitheory Remix), 'Rinzler' (Kaskade Remix) e 'Arena' (The Japanese Popstars Remix).
Arena (The Japanese Popstars Remix) by Daft Punk on Grooveshark
Tapes 'n Tapes - Outside
Quando decidi incluir 'Outside' de Tapes'n Tapes nessa lista, tinha plena consciência que poderia causar polêmica. O motivo disso é o rating extremamente baixo que a grande mídia ( e até alguns blogs pessoais ) tem dado à esse álbum do grupo, aliás, não só a esse, mas ao segundo lançado pela banda, salvo o debut 'London' produzido em 2005, único material que verdadeiramente soa original e de considerável qualidade numa coleção de álbuns fracassados, segundo algumas resenhas por aí.
Então por que escolher afinal um álbum que obteve ínfima estima pela mídia? Por que eu gostei, oras! Podem dizer que o disco em questão foi super-valorizado pela demasiada pressão em relação à banda trazer algo que valesse a pena depois de tantas críticas negativas passadas, mas ao meu gosto o álbum é mais que apenas tragável, e sim bem agradável!
É mais do que óbvio perceber logo numa primeira audição a repetição de muitos elementos do que se tem ouvido por aí na cena indie, e alguns ouvintes mais exigentes podem dizer que 'Outside' é uma cópia preguiçosa de London. Olha só, os dois álbuns realmente parecem andar de mãos dadas, mas sim complementando o outro!
O disco é simples. A instrumentação básica explora guitarras ruidosas, bateria enérgica e o vocal barulhento algumas vezes remete ao padrão punk-rock dos anos 80. E mesmo com o tema 'praticidade' em todas as faixas, há algumas surpresas mais virtuosas, como a faixa 'Freak Out' que em dados momentos soa um bocado como Mumford & Sons e os acordes de guitarra lembram o som peculiar de um banjo, 'One In The Word' tem levada divertida e uma letra simpatissíssima, 'The Saddest of All Keys' é como um lamento com o arrastar de bateria que em compassos lentos dá um ar sensual à mesma e 'Badaboom' tem um solo fenomenal de guitarra em acordes viajantes.
Outside prova que 'Tapes n'Tapes voltou à boa forma do primeiro lançamento, e que ainda é possível abrir espaço para sonoridades carregadas de simplicidade mas com a mesma proporção de sentimento.
Faixas recomendadas:'Outro', 'Badaboom' e 'One In The World'.
Quando ouvimos o terceiro disco da banda sueca Little Dragon a impressão é que o projeto fora feito para as pistas, o que torna 'Ritual Union' um material bastante diferente da proposta do primeiro álbum de nome homônimo (lançado pela banda em 2007) este que mais se assemelhava à sonoridade entristecida e etérea do gênero Trip-Hop. E distante do que era proposto dentro do histórico musical anterior, com esse novo álbum o Little Dragon aparece para soltar todas suas amarras, entregando um registro maduro, comercial e incólume de erros.
O disco abre com a faixa entusiasmada dona do título do álbum, segue pela adocicada e igualmente dançante 'Little Man' e dá-se a largada para uma sussesão de canções radiofônicas repletas por arranjos eletrônicos e de efeitos synthpop. Até que 'Crystalfilm' permite que retomemos o fôlego ao acionar o freio das batidas ritmadas. Os vocais quase infantis de Yukimi Nagano representam o resgate do que possa ser orgânico em toda a sonoridade sintetizada na construção das peças desse quebra-cabeças extremamente delicioso e simples de solucionar.
Com toda certeza 'Ritual Union' deve ser mencionado nas listas espalhados web à fora de discos que impressionaram em 2011, da mesma maneira que é mais do que latente que este é o melhor dos três discos produzidos pelo quarteto sueco.
Faixas em destaque: 'Seconds', 'Please Turn' e 'Little Man'.
Se em 'Nights Out', último trabalho da banda britânica Metronomy, mostra-se uma sonoridade barulhenta e intrigantemente confusa, em 'English Rivera' as referências são menções mesmo que indiretas à sonoridade praiana dos Beach Boys, ou diretas, pela condução explícita ao clima veraneio nas construções das faixas, como em 'The English Rivera' que dá largada ao início do álbum com o som entorpecente de gaivotas e do bater das ondas à beira mar, à capa do disco que nos remete à maresia duma praia ao fim da tarde.
O disco soa surpreendentemente minimalista, e se aproxima ligeiramente dos elementos predominantes do gênero chillout, o que é de igual surpresa já que em trabalhos anteriores dos britânicos reforçava-se o apelo do synthpop com pitadas generosas de samples, e guitarras ruidozas. E mesmo com essa mudança da noite agitada pela calmaria do dia, eles encontraram a sonoridade cabível ao novo Metronomy.
Para escutar 'The Bay', exige-se um drink refrescante para bebericar a sensação relaxante que a canção proporciona. E assim segue a temática quase lo-fi do corpo instrumental das faixas desse disco excepcional. Reserve um assento confortável à orla e aprecie o som contemplativo de 'English Rivera'.
Faixas recomendadas: 'Corinne', We Broke Free e 'Everything Goes My Way'.
Everything Goes My Way by Metronomy on Grooveshark
Foster The People - Torches
Torches, é o marco de estréia do trio californiano, Foster The People, e sem economia de adjetivos, esse é também o trabalho de música pop mais agradável de 2011.
O caminho por uma sonoridade marcada por refrões fáceis e rimas dançantes faz do quarteto uma bela escolha para artistas revelações desse ano.
É impossível não aumentar o volume nas excitantes 'Color on the Walls (Don't Stop)' e 'Pumped Up Kicks', já a agradabilíssima 'Helena Beat' traz os vocais de Mark Foster carregados de efeitos sintetizados, provocando quase que instintivamente o desejo por repetir em coro os refrões marcantes da canção.
'I Would Do Anything For You' é uma das baladas maduras do disco que tem como trajeto das 11 faixas, pincelar as facetas dos integrantes do grupo.
Enfim, o disco fecha com a emblemática 'Warrant', que tem como início um coral produzido com efeitos eletrônicos que dá a idéia de canto gregoriano, até que a canção cresce e dá continuidade nas batidas ritmadas de bateria.
A simplicidade dos elementos eletrônicos presentes no disco e os arranjos que exercem a intenção de funcionalidade e não de querer ser mais do que são, invariavelmente proporcionam um ar de grandiosidade despretensiosa, ponto positivo para um grupo novato na cena musical.
Há uma originalidade nas criações que pressupõe ser perdurada e estendida aos próximos projetos do grupo, o que pouco acontece à música pop tradicional.
Faixas recomendadas: 'Pumped Up Kicks', 'Color on the Walls (Don't Stop)' e 'Warrant'.
O título de My Morning Jacket "Circuital" parece sugerir um retorno ao som original da banda.O trabalho também vai revelando composições que remetem aos velhos tempos do grupo, como 'Wonderful (The Way I Feel)', que mostra a banda em uma formatação quase bucólica, muito similar aos primeiros lançamentos do grupo quando estavam conquistando seu status. O álbum também não abandona as guitarras, repletas de solos viajados e acordes contemplativos, como o que é encontrado em 'Slow Slow Tune' e demais faixas do álbum, remetendo ainda aos bons e velhos lançamentos.
A faixa título é mais próximo do som MMJ clássico - um dia muito quente de sete minutos centrado em algum Allman Brothers- a banda perdeu riffs de guitarra acústica que apresenta em alguns solos graves, e James segue berrando com potência suficiente para alcançar a parte traseira de qualquer anfiteatro.
A banda formada por James, “Two-Tone” Tommy, Patrick Hallahan, Bo Koster e Carl Broemel brinca com a temática futurística nesse novo álbum, o que fica visível em 'Outta My System', mas a essência folk-rock /country permanece presente na atmosfera das faixas.
Faixas recomendadas: 'Circuital,' 'Victory Dance,' 'Wonderful - The Way I Feel'
Depois do aclamado 'In Gost Colours' a banda australiana lançou seu terceiro álbum já agradando de imediato aos fãs de longa data e aos curiosos de plantão.
A eficácia na instrumentação do segundo trabalho de Cut Copy é repetido magistralmente em seu mais novo álbum. As canções demonstram uma produção impecável em que as faixas trabalhadas quase que inteiramente através de camadas de sintetizadores ganham contornos épicos memoráveis, vocais e instrumentação preenchem largamente as lacunas das 11 faixas do disco.
Zonoscope apresenta faixas que ouvidas seguidamente aparentam estar ligadas umas às outras, formando um ciclo harmonico e gradual e todas elas sse encaminham numa preparação pra quase espectral 'Sun God'.
Não há como negar a proporção de qualidade em Zonoscope. A boa forma do quarteto é uma extensão dos seus primeiros hits, e ainda nos remete ao que mais marcou em synthpop nos anos 80. O álbum é cativante e dotado de uma energia ritmada que muito se adequa à sonoridade de grupos como LCD Soundsystem e Hot Chip.
Faixas recomendadas: 'Pharaohs & Pyramids', 'Strange Nostalgia For The Future' e 'Sun God'.
Fleet Foxes é uma banda que transcende seu tempo. Formada por Robin Pecknold (vocal, guitarra) Skyler Skjelset (guitarra, bandolim) Christian Wargo (baixo, guitarra, vocal) Casey Wescott (teclado, vocal) e J. Tillman (bateria, vocal) o quinteto parece fazer parte daqueles grupos de trovadores da Idade Média. A visível influência da sonoridade Barroca, muito se aproxima à artistas que não se prendem à modernidade do cenário musical atual como Will Oldham, Iron and Wine e Devendra Banhart.
'Helpless Blues' é um álbum de raízes clássicas e dotados de referências folk-rock inicialmente exploradas por Crosby, Still & Nash, The Byrds ou Peter, Paul & Mary, e a sequência das faixas nos leva de volta à década de 60/70, coisa que os mais céticos poderiam duvidar que na era do download e do soundbyte, tamanha 'regressão' funcione. Mas o último disco dos Fleet Foxes mostra exatamente o contrário. Ainda há espaço pro resgate musical, e um violão, bandolim e coros de vozes podem sim encantar os ouvidos mais apurados.
De instrumentização minuciosamente elaborada, o dedilhar de guitarras acústicas adornam o dançar de pés descanços sob o pairar de nuvens tendo como tapete o verde orvalhado da natureza. Como não ovacionar artistas que nos provocam sensações como essas?
Se expctativas foram lançadas em relação ao segundo álbum do grupo, eles suprem-nas com exímia excelência.
Faixas recomendadas: 'Sim Sala Bim', 'Helpless Blues' e 'The Shrine / An Argument'
The Shrine / An Argument by Fleet Foxes on Grooveshark
Death Cab For Cutie - Codes and Keys
Em "Codes and Keys" a banda está finalmente em condições de equilíbrio tentando novas idéias com a manutenção de sua identidade. A levada enérgica, a parca inclusão de batidas e teclados, sem contar nos vocais carregados de efeitos fluem como um comprovante disso.
Para o sétimo álbum, o grupo mais uma vez prima pela inovação, guiando as canções através de duas vertentes distintas, que fazem com que o som do quarteto se evidencie mais uma vez de forma nova e criativa. A primeira percepção repassada através do álbum vem do uso relevante de programações, efeitos, sintetizadores e uso moderado de bateria eletrônica.
Neste trabalho tudo parece melhor solucionado, os acordes soando límpidos, grandiosos e por conta disso fazendo desse sétimo registro uma excelente mostra do que a banda é capaz.
O fato é que Codes and Keys faz com que o Death Cab fuja da homogeneização e mesmo distante do viés musical dos últimos trabalhos da banda,instrumentalmente melhor resolvidos e culpados pelos mais belos versos já expostos pelo quarteto, o sétimo disco apresenta-se assumidamente mais pop e com pitadas de uma alegria melódica que não havia em seus álbuns mais conceituados até o momento (Transatlanticism e Plans). Vale a pena conferir essa cara nova e tranquilamente válida de DCFC.
Faixas recomendadas: 'Doors Unlocked and Open,' 'St. Peter’s Cathedral,' e 'Some Boys'.
Explosions In The Sky - Take Care, Take Care, Take Care
Explosions In The Sky é uma banda instrumental texana formada em 1999, tendo em seu encalço 5 álbuns lançados. O diferencial desse quarteto é a humanização refletida nas belíssimas obras. E talvez colar um vocal em suas ricas melodias significasse a exclusão de todo encantamento presente nas composições.
As faixas de 'Take Care, Take care, Take Care' possuem orquestração orgânica, com cada instrumento fazendo parte de uma totalidade celestial, transmitindo um sentimento extasiante e uma sensibilidade à cerca de questões universais que só um notável grupo de Post-Rock é capaz de provocar em corações carentes por afagos musicais.
O novo disco do quarteto de Austin flui de maneira solta, embora direta, como se as 6 faixas de aproximadamente 8 minutos cada, não tivesse pressa em terminar, deixando com que cada som cresça e se desenvolva de sua própria maneira, tornando cada audição uma expectativa pela surpresa seguinte. Esse disco certamente é um dos trabalhos mais ricos e memoráveis realizados nesse ano, uma passagem de ida aos mais densos questionamentos internos que um ser-humano pode fazer.
Faixas recomendadas:'Human Qualities', 'Be Confortable', 'Creature e Let Me Back In'.
Black Keys, duo americano de blues-rock, precisou de 9 anos e 7 discos lançados para enfim atingir o reconhecimento que estava sendo ensaiado pela banda através do decorrer dos anos. E o estouro repentino dos rapazes, deve-se ao esforço contínuo de Danger Mouse,um dos principais integrantes do Gnarls Barkley e produtor bem sucedido. E Mouse preparou o terreno dando espaço para essa ascenção da dupla.
As faixas de 'El Camino' carrega forte influência da sonoridade hard rock, rock setentista, blues de raíz, e rock de garagem. Todas as onze faixas tem potencial e apresentam refrões grudentos.
O disco abre com o primeiro single, que foi ilustrado por um vídeo fenomenal. A irresistível 'Lonely Boy' é extremamente empolgante, e dá as boas vindas ao álbum de maneira impecável, seguindo a mesma excelência até o fim do disco.
Dan Auerbach, vocalista e guitarrista do Black Keys, tem provado com eficiência ser dono de umas das melhores vozes da atualidade, o que fica explícito em 'Mind Eraser'.
'Little Black Submarines' é uma das canções grandiosas do disco, de início silencioso e introdução sedutora de voz e violão, tem a descrescência desenvolvida conforme a canção caminha, até arrebentar nas batidas frenéticas das baquetas de Patrick Carney.
El Camino soa mais maduro, um pouco mais pop, e transita pelas vertentes bluseiras por quais a dupla tanto é influenciada, unindo o groove pertencentes às gravações da Motown Records, e à eletrecidade de artistas como Robert Johnson, Howlin'Wolf e Muddy Waters
Bandas de apenas dois integrantes como o Black Keys só comprova que é possível produzir som de qualidade com poucos elementos.
Faixas recomendadas: 'Run Right Back', 'Money Marker' e 'Little Black Submarines'.
Little Black Submarines by The Black Keys on Grooveshark
Corea, Clarke & White - Forever
Em 2009, Corea convocou Stanley Clarke e Lenny White. Chamaram o trio de Forever, em tributo ao grupo dos anos 70. Mais de quarenta shows depois, eles até gravaram um disco. Mas só agora o projeto Forever ganha forma definitiva no álbum duplo recém-lançado pela Concord no mercado internacional.
A junção do trio passados tantos anos desde a formação do Return To Forever em 1972, é um daqueles momentos privilegiados na carreira deles. Plenamente amadurecidos, brilham em standards como 'On Green Dolphin Street', onde cada um realiza improvisos de alta voltagem.
Corea celebra seus ídolos de teclado, como Bill Evans (uma emocionante interpretação de Waltz for Debby, com direito a um solo de arrepiar de Clarke) e Thelonious Monk (Hackensack, com belo solo de White). De quebra, arrebentam ao evocar os anos 70, com Windows, No Mistery e Señor Mouse.
O segundo disco foi captado nos ensaios para um show em 2009 no Hollywood Bowl. Então a atmosfera muda. Corea assume teclado eletrônico e Clarke o baixo elétrico em 'Captain Marvel'. Alguns convidados completam o RTF sound. Chaka Khan empresta a voz em 'High Wire – The Aerialist' e 'I Loves You Porgy'.
O guitarrista Bill Connors, que tocou no RTF, aparece para mostrar que ainda é preciso em 'Señor Mouse'. Mas o coringa do segundo disco é o violinista francês Jean-Luc Ponty. músico que acompanhou o RTF na década de 70.
Conferir esse material é estar no túnel do tempo. pois os fãs do trio que viveram a época do grupo que inspirou a homenagem de 'Forever', ou mesmo os entusiastas recentes, podem embeber-se de nostalgia, a partir da citada 'Armando’s Rhumba'. E a ode retrô dos anos 70 permanece com o violino de Ponty predominando em 'Renaissance' e na dançante 'Space Circu's.
O resultado de Forever é uma releitura brilhante dos standarts do RTF com instrumentos acústicos dando um aspecto de bebop às composições eletrificadas originais.
Grande experiência conferir gênios como Corea, Clarke e White voltando à origens.
Faixas recomendadas: '500 Miles High', 'La Canción de Sofia' e 'No Mystery'.
The xx é um trio britânico surgido em 2005 que preza pelo minimalismo sonoro, e é exatamente essa característica marcante em suas 11 faixas presentes de seu álbum de estréia que os fez destacar na lista de maiores nomes do atual cenário musical.
Formados por Romy Croft nos vocais e guitarra, Oliver Sim nos vocais e baixo, e Jamie Smith que é responsável pelo tempero eletrônico e produção, o trio venceu o aclamado Barclaycard Mercury Prize, concorrendo com bandas e cantores de peso como Foals, Laura Marling e Mumford and sons.
O grupo já assumiu escancaradamente sua influência com o duo americano The Kills, e numa primeira audição é possível notar uma imediata semelhança se buscarmos a ponte que os une no mix baixo, guitarra, teclado, samples e bateria eletrônica, sendo revezados pelas vozes dos duos das duas bandas citadas. Mas é também latente a diferencia no peso dos dois grupos, pois o Kills soa bem mais agressivo e Rock and Roll que a singeleza etérea do trio que representa o que há de melhor no quadro contemporâneo de lo-fi. Há também um beber de fontes na musicalidade da banda escocesa Jesus and Mary Chain, nas estruturas das guitarras e no ar despretencioso em suas canções.
O visual sombrio e obscuro dos integrantes desse trio peculiar é estendido às composições e harmonias que aparentam ter tido seus movimentos estudados à exaustão com o intuito de transmitir essa simplicidade aconchegante que preenche qualquer ambiente de uma sensualidade extremamente prazerosa.
E cada faixa é um convite à uma viagem sideral, em que a atmosfera é envolvida pelo adorno dos acordes de guitarras espalhados numa superfície pacífica de sintetizadores climáticos e sussuros sonolentos.
Eles tem chamado a atenção não só de ouvintes anônimos, mas também de alguns artistas famosos, que já declararam suas admirações pelo grupo. Exemplos disso são os covers de seus então hits.
Shakira em cover de 'Islands'
Gorillaz em cover de Crystalised
O trio remixou um dos hits de Florence Welch e convidou a cantora para subir ao palco em uma de suas apresentações no festival Glastonbury em 2010:
Independente de todo o hype que o grupo está sendo tragado, e o suscetível aparecimento dos fãs exagerados que tornam seus ídolos deuses intocáveis, o The xx produz qualidade musical competente, com elementos simples e até óbvios, mas mesmo assim soa grandioso. Não há exploração de técnicas musicais nem virtuosismo harmônico. As vozes tangem o modesto ao pueril, mas a sonoridade inorgânica, e os beats ritmados compensam a ausência de complexidade. É o acrescentar em subtrair.