sábado, 19 de novembro de 2011
La Piel que Habito
Ainda absorvia à 'Abraços Partidos' quando fui conferir no cinema 'A Pele que Habito'. E a impressão que fica é a profunda admiração pela forma como o cineasta Pedro Almodóvar consegue trabalhar o drama unindo diversos outros gêneros, e nesse último, o neo-noir, o terror psicológico e a ficção científica.
Se em sua vasta filmografia, Almodóvar expõe a marca da mulher forte, nesse a coisa não é tão diferente. Exceto pelo fato de que o foco está em explorar a pele como meio de tentar mudar a essência da natureza humana, isto é, buscar a feminilidade da mente masculina afeminando a pele. Caminho contrário daqueles que se sentem presos à condição de homem (homosexuais) sendo que a mente é de uma mulher. E é assim que Almodóvar desenha o drama do enclausuramento de Vicente (Jan Cornet) ao se ver obrigado a ser presioneiro de um corpo que não aceita, situação imposta pelo fantástico Dr. Frankenstein, Robert Ledgard (Antonio Banderas).
A película se trata de uma adaptação do romance de Thierry Jonquet, e mesmo assim carrega traços latentes do cinema de Almodóvar. Seja pelas cores fortes, pela trama bem amarrada e fluída, pelo apelo da atuação dramárica dos atores ou pelos takes artísticos e honestos, dessa maneira, podemos conferir a cada cena o olhar do cineasta.
Esse texto contém detalhes minuciosos sobre o filme e spoilers escancarados, cabe a você leitor, decidir se deve prosseguir na leitura ou não.
Desde que a sua mulher foi vítima de um acidente de automóvel, o doutor Robert Ledgard, conceituado cirurgião estético, dedica-se à criação de uma nova pele graças à qual poderia salvá-la. Doze anos após o acidente eminente, Robert consegue cultivar uma pele que é uma verdadeira couraça contra todas as agressões. Para além de muitos anos de investigação e de experimentação, Robert precisa de um cobaia, de um cumplice e de uma ausência total de escrúpulos. Os escrúpulos nunca o afogaram. Marília (Marisa Paredes), a mulher que se ocupou de Robert desde o dia em que nasceu, é sua leal cúmplice. E Robert direciona sua dor naquele que violentou sua filha Norma (Blanca Suárez) em uma festa, sequestrando-o a fim de torná-lo cobaia de sua experiência macabra.
Anos passados desde o sequestro, vemos em sua casa uma paciente misteriosa mantida sob clausura, seu nome é Vera (Elena Anaya),e nada se menciona à respeito de seu histórico.
Só é revelado a quase óbvia procedência de Vera no meio pro fim da película, então fingimos surpresa ao entender que Robert trocara o sexo de Vicente para aos poucos transforma-lo em Vera. Mesmo com o código decifrado de antemão, recurso talvez premeditado do autor, nada se perde da simbologia.
Completamente imprevisível, não fica claro de início se devemos criar um bom julgamento do criador do experimento, até que sua 'máscara' começa a 'despelar'. Exatamente o que acontece com cada um dos personagens da trama à medida que ela se desenvolve, outra analogia interessante a se destrinchar. Pois esse 'desvestir' do que protege a verdadeira essência das roupas e peles imaginárias é só o caminho para se mostrar como se é verdadeiramente. E isso fica implícito quando o Doutor de Norma vocifera ao pai da garota desequilibrada ao ser questionado do por que das roupas que a deixam com aspecto doentil: '- É a única coisa que ela se dispõe a vestir, do contrário ela arranca tudo! Não consegue ficar à vontade com roupas!'.
Outro exemplo é a maneira como gradativamente a própria criatura se revolta contra o criador. Vicente/Vera, a cobaia, busca insessantemente o equilíbrio da mente através da Yoga, lutando contra o condicionamento visual através de imagens que obrigariam a mente assimilar idéias impostas, nesse caso, a tentativa de transformar a mente de Vicente, unindo definitivamente ao corpo de Vera. Ao neutralizar-se, Vera transveste da máscara que seu mentor deseja, e o ludibria traiçoeiramente usando das armas do manipulador contra ele mesmo. Para enfim, se ver livre dos grilhões invisíveis limitadores do controle alheio.
A obsessão de Robert é tão excessiva que em diversos momentos ele se põe a referir à cobaia que jamais irá se queimar novamente pois sua pele ficará forte o bastante para suportar o calor. Tais delírios se tratam de uma auto-afirmação desesperada ao tentar reproduzir a pele que sua esposa necessitava no momento do acidente de carro, e o tempo todo Robert vê em Vera, uma projeção de sua amada falecida.
Almodóvar nos conduz de forma cadênciada até que seja quase óbvio o destino que nos quer levar, mas até que seja descoberto os caminhos para tal, somos reféns de sua mirabolante jornada até o desfecho de sua obra, nos restando apenas esperar atentos e sem desgrudar os olhos da tela, pois cada detalhe nos conduz às esquinas do labirinto das mentes dos personagens. De enredo patológico, a película é sobretudo uma pintura impressionista do exagero da natureza humana.
E nos faz questionar: 'Como viver na pele que habito, uma vez que ela não representa minha identidade,o meu ser?'
'A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.- Paul Valéry'
Título Original: La Piel que habito
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar, Thierry Jonquet
Produtores: Agustín Almodóvar, Pedro Almodóvar
Elenco Principal:
Blanca Suárez (Norma)
Marisa Paredes (Marilia)
Jan Cornet (Vicente)
Elena Anaya (Vera)
Antonio Banderas (Ledgard)
Participação especial de Buika, célebre cantora espanhola.
País de Origem: Espanha
Assinar:
Postar comentários (Atom)




Belo texto! vc consegue traduzir muitas das impressões que tive e vai além. Não tinha percebido, e por um momento de distração causado por algumas das impactantes cenas, o que pode parecer óbvio, a pele x natureza humana, é latente, porém, um desavisado e nao habituado com o estilo do diretor acabaria por se conter às situações mais imediatas, e nao se aprofundando em algumas questões. Temas como esse envolvento questões éticas e morais ou humanas em filmes tendem a serem sempre emblemáticos, também nao vejo outra forma, talvez se nao fosse assim, não seria um Almodóvar, nao é mesmo?
ResponderExcluir